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NAS CURVAS DA MONTANHA

Capitulo 4

Armando o acampamento

Declaro que neste riacho não existe mais ouro! A única coisa que encontrei foi lama e cascalho dentro do canal. Olho ao redor e já não consigo mais ver Gleidson que  trinta minutos atrás, disse que ia procurar uma entrada para o carro descer até perto da árvore. Vai saber de que espécie ela é. Na falta de um nome fica sendo simplesmente “Arvore”.

Comecei a ficar com medo de ficar aqui sozinha. O lugar está tão abandonado, não tem cerca nem nada. As únicas barreiras são aquelas árvores nas margens da estrada lá no alto e esse barranco do outro lado do rio. Mas o lugar é tão lindo!

Os garimpeiros deixaram uma manta de cascalho que, em sua maioria são brancos ou em tom meio laranja. Estava tudo espalhado e com uns poucos montes ainda por ali mas, o mato já tentava cobrir tudo. Acho que mais alguns meses e todo aquele lugar irá desaparecer, coberto pela mata. Já no rio, o represamento e canalização da maioria da água para o canal de lavagem do cascalho da impressão que o rio estava atormentado naquele ponto. É que vinha uma aguinha calma e serena lá do meio do mato e de repente, ela ficava brava e zangada, tendo que se espremer enquanto tentava vencer essas barreiras para reter o extinto ouro que extraíam daqui. Assim que vencia seu obstáculo, o riacho voltava a seguir seu rumo em paz. Lugar bonito esse afinal.

Resolvi me aventurar pelas pedras do dique e conferir o que havia do outro lado. É humilhante mas eu não sei nadar e mesmo tendo como adversário um rio tão raso e calmo, meu medo me obriga a passar pelas rochas amontoadas, meio que engatinhando. Ainda bem que ninguém esta vendo esta cena ridícula. Eu aqui, com a bunda pro ar e apalpando as pedras com as mãos, hora tropeçando, outras se borrando de medo. Parei por um instante e levanto a cabeça para olhar o quanto faltava para alcançar o outro lado e para minha surpresa, não havia avançado muita coisa e desisti do plano. Tentei subir em um monte de cascalho e também não consegui ver além da margem do rio. Pulei do monte de cascalho e me afastei o máximo possível e nenhum sucesso. Foi aí que ouvi a buzina do carro e resolvi seguir o rastro de Gleidson pelo caminho que subia se afastando do rio, rumo à estrada e foi aí que percebi que dalí talvez eu veja o outro lado do rio. Fui caminhando e de vez em quando olhava para trás mas a subida era lenta e não via mais do que mais daquelas arvores tortas típicas do serrado. Não dava para ver muita coisa alem de mais mato e opa! O carro se aproximou de onde eu estava mas o mato ali era mais denso. Até dava para ver por onde Gleidson passou. As moitas dobradas ou visivelmente agredidas, mas para mim, ainda era muito mato.

Enquanto roçava o mato com as pernas, voltei a ouvir o carro sendo ligado e se movimentando. Entrei em uma passagem apertada. Acho que apertada demais para um carro. Talvez uma carroça passasse por ali antigamente, mas um carro? Bom, parece que Gleidson acha que é possível. Nosso carro acelera forte e de repente ouço o som seco de uma batida e uma nuvem de poeira avançou sobre mim. Cobri a boca com a camisa mas não adiantou muito. Resolvi avançar assim mesmo e bastou alguns passos para avistar a merda feita. Assustei-me com a cena. Vi o carro lá, cego de um olho em meio a uma tempestade de poeira que impedia de ver o lado de dentro do carro até que o limpador do pára-brisa passa uma única vez e lá está o grande motorista com cara de bunda olhando pra mim.

Depois que a poeira baixou e de ter ouvido meia dúzia de versões sobre o acidente, resolvemos seguir com o plano de descer com o carro por aquele caminho. Fui na frente, ajudando a não esbarrar as laterais do carro no barranco. O carro foi passando apertadinho, fomos avançando por onde dava mas sempre evitando passar perto do rio. Fizemos um pequeno ziguezague pelos montes de cascalho até chegarmos o mais próximo possível da árvore. Ficamos a apenas alguns metros do nosso esconderijo. Enfiamos o carro debaixo de umas arvorezinhas para não ficar tomando sol e descarregamos nossas coisas. Agora é só armar a barraca e enfim comermos alguma coisa. Nossa como estou faminta!

Era maravilhoso estar ali em companhia da pessoa amada longe de preocupações do dia a dia. Por mim o tempo pararia ali naquele exato momento, mas nem tudo é como desejamos. Distraímos-nos, o tempo passou e quando nos demos conta já tinha voado muito mais de uma hora. A fome bateu e era a hora de nos prepararmos para montar a barraca, escolhermos o lugar perfeito sob a copa da árvore  que dava uma sombra boa e suficiente para  nos proteger do sol, do frio ou de alguma eventual chuva.

Gleidson sempre diz que armar e desarmar um acampamento é uma ciência. Ele justifica essa teoria relembrando outros episódios, onde ele viu tantas pessoas se atrapalhando para montar suas próprias barracas. Aquelas varetas, é para a maioria, um terror anunciado. Ele via o pessoal chegando ao cúmulo de especular que alguém havia colocado varetas a mais no pacote. Mexem, enfiam e esticam de todo modo e nada de utilizar todos os pedaços das barracas. E para desmontar, era a mesma coisa só que invertido. Dobram e redobram o tecido da barraca e nada dela voltar a caber dentro do seu pacote. A nossa usa três enormes varetas. Como ela é grande, com capacidade para 5 pessoas, montá-la sozinho fica bem difícil mas com duas pessoas vai tranqüilo. Pena eu mais atrapalhar do que ajudar na montagem. Como eu ficava mais olhando Gleidson indo pra lá e pra cá, puxando aqui e prendendo ali, qualquer coisa serve para tirar minha atenção então, nada melhor do que apreciar a natureza. Dei uma boa olhada ao nosso redor e avistei uma imensa teia de aranha. Demorei um pouco para encontrar a autora mas lá estava ela. Se tem um bicho que Gleidson tem repulsa são as aranhas, mas ele nunca assume o fato e costuma dizer “Elas lá e eu aqui. Se não mexerem comigo, eu não mecho com elas”. O fato é que se uma cruzar seu caminho, certamente ela será destruída mas ele também respeita o território das arainhas e assim tudo fica em paz.

Evitamos ao máximo destruir as samambaias e fizemos apenas algumas trilhas entre elas. Montamos nossa barraca um pouco ao lado da cabana destroçada. Seu interior agora, seria o nosso banheiro. Banheiro com paredes é um privilégio por ali. Cavamos um buraco para o número 2 e penduramos o saquinho de lixo no ladinho. Tinha uns matinhos rasteiros que espetavam a bunda durante os trabalhos mas isso, faz parte da vida selvagem sendo inevitável esse desconforto. Os mosquitos também querem participar mas eles são expulsos por um pedaço de esterco queimando e gerando muita fumaça. Na ausência disto, pó de café também resolve. Basta fazer um montinho e acender com isqueiro mas prefiro mudar de assunto.

Como o nosso carro é de passeio, não dá para carregar muito peso então, nem pensar em levar um fogãozinho ou botijão de gás. Sendo assim, o negócio é improvisar e nisso, levo vantagens porque sempre acho algo útil para a construção de um fogãozinho a lenha. Melhor ir a luta e vasculhar as redondezas antes que escureça. Não distanciando muito da visão de Gleidson colocando as coisas pra dentro da barraca fui em busca de alguma coisa para construir o fogão. Com olhos fixos ao chão, rumei em direção ao rio. Talvez eu encontre algumas pedras interessantes.

Nas margens do rio, acabei encontrando umas rochas com formatos bem convenientes e acabei montando um belo fogão. Coloquei nossa grelha em cima e já comecei os trabalhos na cozinha. Acabei fazendo o fogão bem próximo de nós. Como ali não tinha corrente de vento devido ao barranco e as árvores ao nosso redor, não havia problemas em telo assim tão próximo.

Agora, o objetivo é catar lenha então, lá vou novamente rumo ao rio catar gravetos e galhos secos pelas redondezas. Isto me faz lembrar o meu tempo de criança, quando ia para um lugarejo próximo da minha casa, com meus tios e via aquelas senhoras carregando fechos de lenha na cabeça equilibrando com maior tranqüilidade e concluí que, ainda bem que lá em casa tem fogão a gás. Não deu para evitar uma risadinha. Gleidson mais que depressa mesmo de longe ouviu e já pergunta – Por que está rindo? – e logo respondo – Estou dando graças à invenção do fogão a gás – e saio catando galhos e gravetos cantando “lata d’água na cabeça lá vai Adriane, lá vai Adriane”. 

Já na minha segunda viagem carregando lenha, notei que Gleidson já havia esticado o nosso varal, estendido uma lona de tecido entre a barraca e o fogão e colocado tudo dentro da barraca ou no lado dela. Já estava tudo arrumadinho e aconchegante. Ele estava tentando encaixar uma pedra chata bem fica por baixo da lenha dentro do fogão. Segundo ele, era para manter o calor e facilitar a manutenção do fogo aceso.

Fizemos sanduíches e comemos. Já não agüentava mais beliscar biscoitos. Trouxemos 2 caixas de isopor pequenas com perecíveis e o nosso gelo, também é a água que beberemos. A gente congela água em garrafas pet e vamos aproveitando a água gelada das garrafas enquanto elas vão derretendo. Assim os alimentos não entram em contado com a água, o que aumenta a sua durabilidade e não causa problemas como formigas que atraídas pela água que vaza dos isopores.

Agora que estávamos de barriga cheia, chegou a hora de dar um mergulho no rio antes que a luz do dia acabe. No ponto mais próximo do acampamento, o sol não conseguia alcançar o solo devido aos galhos da grande arvore então, fomos para o dique. Lá sim, daria para tomar um banho, sossegado com hidromassagem de um lado e águas calmas do outro.

Enquanto Gleidson se preparava para entrar na água, resolvi buscar nossas coisas. Como naquele lugar não havia mais ninguém além de nós, acho que nosso banho vai ser bem agradável. Está tudo tão perfeito que não vejo problemas em cometer umas extravagâncias.

(continua…)

NAS CURVAS DA MONTANHA

Capitulo 3

A missão quase impossível

Resolvi tentar aproximar nosso carro do lugar onde estávamos, pelo caminho que encontrei. Olhei para trás e Adriane estava inutilmente tentando encontrar algum tesouro dentro das lapas, agachada como criança, enfiando a mão na bacia de pedra que continha mais lama e folhas do que água.

Agora que já nos sentíamos mais seguros com o lugar, começávamos a explorar o ambiente com mais tranquilidade e não agarrados um ao outro. Deixei minha mulher lá, à procura de ouro e fui subindo a encosta do morro logo mais adiante para ver se realmente havia ali uma estradinha perdida debaixo da vegetação rasteira. Olhei para trás e estava tudo bem lá embaixo. Acenei com a mão e disse que ia buscar o carro. Caso não houvesse um caminho para o carro passar por ali, seria impossível ficarmos lá embaixo. Subir e descer nossas coisas seria muito cansativo e demoraria muito e o sábado já corria a galope.

Analisando com carinho o terreno, concluí que até daria para descer com o carro até o dique mas para subir só seria possível caso o solo estivesse seco. Já não havia tanto cascalho por ali e a terra molhada seria um obstáculo intransponível para um carro de passeio. Quebrei um galho seco bem cumprido e segui cutucando o chão com uma vara e o terreno estava bem arenoso. Comecei a me preocupar antes mesmo de saber se o caminho dava acesso à estradinha. Essa trilha foi entrando entre dois barrancos de uns 2 metros de altura enquanto projetava uma curva a direita e se, continuasse assim, acabaria por encontrar a estrada e o carro mas estava ficando muito estreito e a curva era forte. Até que as moitas pelo caminho eram bem flexíveis em sua maioria e eu não precisaria cortar nenhuma apesar delas já estarem roçando o meu peito. Não demora eu encontrar uma cobra por aqui ou uma daquelas aranhas horrendas, arrrgh. Aliás, eu não to procurando esses bichos e nem desejo que eles me encontrem. Eu só estou aqui, em busca de um acesso ao nosso pequeno vale particular e se o povo estiver certo que, se a gente pensar demais em algo acaba acontecendo, então é melhor eu mudar de pensamento e opa! Encontrei uma velha porteira de arame farpado e isto é bom demais! Eu realmente estava em uma estradinha de acesso.

Pronto, agora é oficial. Daqui não da pra ver o carro ma já sei que ele está ali adiante. Tudo que preciso fazer agora é retirar essa cerca velha do caminho e empurrar toda essa areia fina que foi se acumulando aqui na beira da estrada de terra. Não ia ser tão fácil assim já que não tinha nem pá ou enxada. Resolvi buscar o carro.

Enquanto caminhava, ia tentando avistar a pequena clareira onde vamos acampar e não dava para ver nada lá embaixo e daquele ponto, o som do riacho era mais claro mas ainda bem sutil. Com essa barreira natural pelo lado da estrada e o desnível elevado do terreno na outra margem do riozinho, tornou aquele ponto muito secreto e confesso que fiquei empolgado com a descoberta. Estava muito feliz em ter encontrado aquele cantinho só nosso.

Agora dentro do carro, percebo que já são 14 horas de sábado e não tínhamos nem armado a barraca ainda. Nem vou mencionar a fome já tava batendo forte na boca do estômago.

Dei uma buzinada para Adriane saber que eu alcancei o carro. Agora só falta o carro alcançar ela lá embaixo. Cheguei até antiga passagem e me deparei com o meu problema novamente. Como passar com um carro de passeio, de fundo tão baixo por aquela areia toda? De dentro dele que eu não acharia a resposta e resolvo descer para procurar por alguma ferramenta improvisada e não encontro nada além de um dormente de cerca meio torto, jogado sobre o mato seco e empoeirado. Pego o dormente e levanto tanta poeira que engasguei com o pó que grudou no céu da boca.

Bom, minha idéia foi arrastar o tronco naquele pó fino e tentar empurrar o Maximo dele pra fora do caminho mas não deu muito certo. Resolvi acelerar o carro e tentar vencer aquele obstáculo fofo usando a inércia ao meu favor e torcer para que o carro ultrapassasse o banco de poeira antes de parar ou atolar.

E assim foi feito. Dei ré no carro alguns metros. Cerca de 10 metros apenas. Meu plano era acelerar, virar pra esquerda e entrar com tudo naquele pó laranja de terra seca e moída já em linha reta, passar pelo inimigo em velocidade e jogar a direção levemente para a esquerda para se preparar para descer a trilha. Os efeitos colaterais da minha idéia eram não alcançar velocidade suficiente já que o carro tava carregado, não alinhar a tempo para entrar em linha reta e de não conseguir virar para a direita para desviar do barranco logo após o banco de areia. Mas eu já tava determinado acampar ali e não ia ser um pozinho besta daquele que ia me deter. Liguei o carro. Ensaiei o movimento algumas vezes, voltei para minha posição de largada e vruuum! O carro ganhou velocidade e apostei que dava! Joguei para esquerda e já saquei que não ia conseguir alinhar a tempo mas não dava mais pra arremeter. Entrei com tudo meio de lado na poeira, tocando com a roda esquerda primeiro. Rocei umas duas moitas pequenas que não estavam nos meus planos e aquele ruidinho dos espinhos na lataria foi meio sofrido de se ouvir. O pára-choque deu uma ‘carada’ tão forte no pó, que minha visibilidade foi quase a zero. Foi como se tivesse explodido uma bomba de farinha laranja e o carro já tava patinando e perdendo força. Olhei pela minha janela o barranco crescendo e joguei tudo pra direita e acabei ouvindo um som muito desagradável vindo de debaixo do carro. É que o animal aqui, esqueceu a tora mergulhada na poeira e agora ela estava sendo atropelada pelo carro. Com o susto que o barulho me deu eu finalizei meu combate marretando o dormente da antiga porteira de arame e quebrando um farol. Agora que o carro parou, a poeira nos alcançou e nós desaparecemos em meio a uma nuvem de pó que jamais poderia esquecer, fiquei quietinho lá dentro do carro até a atmosfera externa melhorasse consideravelmente.

Tentava bolar uma forma de botar a culpa pelo prejuízo em alguma coisa, para ver se conseguia recuperar algum fragmento do meu orgulho de bom motorista em meio a todo aquele caos. Em tempo, eis que me aparece Adriane abanando a poeira da frente do rosto, como se fosse possível tal milagre e a cara dela? Ah amigos não tinha outra tradução senão – Ah eu sabia que ia dar merda!

(continua…)

NAS CURVAS DA MONTANHA

Capítulo 2

Um cantinho só nosso

 De fato havia um riacho passando por ali, escondido pela densa vegetação. Era impossível ver de onde vinha ou para onde ia. A curiosidade nos levou a darmos uns passos para fora da estrada, onde acabamos encontrando uma trilha de formigas cortadeiras que avançava por baixo da vegetação que sobreviveu ao apetite dessas formiguinhas e da poeira que se acumulava sobre ela. Elas saem dos ninhos para buscar alimento e durante o processo, qualquer matinho que estiver pelo caminho da fila interminável de formigas acaba sendo cortado e carregado. Como é bicho esperto, ele vai explorar os recursos naturais bem longe de casa. Vão cortando em uma direção até que essas trilhas se estendam por longas distancias. Alguns dizem que são vacas ou pessoas que produzem esses convenientes caminhos de terra pelos morros mas as formigas cortadeiras também engenham belas trilhas pelos pastos. As vacas aproveitam a dica e acabam alargando a trilha ainda mais. O bicho homem também usa essas rotas comunitárias só que no nosso caso, a trilha ainda era só de formigas. Resolvemos abrir caminho seguindo a dica das formigas e após alguns metros e vários arranhões, o que imaginávamos ser várias árvores aglomeradas no fundo do vale, era na verdade uma única árvore bem alta. 

Naquele ponto onde estávamos, quase dava para tocar alguns galhos mais rebeldes mas nem tentamos. Despedimo-nos da trilha de formigas e descemos o barranco aproveitando uma pequena erosão causada pelas chuvas. Não era a melhor das escadas mas ajudou muito a descer e tomando o devido cuidado, de não se segurar nas raízes expostas mais frágeis, elas nos serviriam de apoio muito bem e assim, descemos com segurança. Foi somente ao finalizar a descida que notamos que havia ruínas do que deveria ser de uma pequenina cabana mas agora só restavam alguns pedaços de pau ainda de pé, com restos das paredes feitas com barro. Certamente alguém morou ali muito tempo atrás. Essa cabana ficava  em posição estratégica em relação à grande arvore. Erguida entre o morro e a estrada atrás de nós, o chão era batido e plano dando a ligeira impressão que tinha sofrido intervenção do homem. A velha cabana tinha como quintal, a sombra da grande arvore que por sua vez lhe servia de abrigo do sol e de chuvas fortes mas agora, pensando melhor, talvez aquela arvore nem existisse no período em que viveu alguém por ali. Quem sabe nem a estradinha de terra. Ao olhar para cima notei que o morro abraçava aquele local, em 180 graus mais ou menos.

Agora, aquele habitat serve apenas de abrigo para samambaias que tudo indica migraram do barranco para o chão que agora era forrado delas. Com samambaias crescidas, na altura da nossa cintura, passamos pela cabana e nos aproximamos do tronco da arvore. Seu tronco era grosso e tinha umas tiras de sua casca faltando. Deveria ser uma árvore com propriedades medicinais, afinal de contas, porque alguém faria aquilo? Extraíram pedaços retangulares de sua casca que acabou por tentar cicatrizar o corte mas ainda ficaram marcas visíveis da sua mutilação. Ao olhar para cima, percebemos que descemos pelo caminho mais difícil já que a trilha de formigas continuava contornando o barrando até adiante, onde o acesso era facilitado até mesmo para o mais desajeitado dos exploradores. Estávamos agora, bem abaixo da estradinha. Cerca de 15 metros eu acho  e o riacho, não era riacho e sim um córrego. Para falar bem a verdade, eu não saberia a diferença entre os dois. As águas cristalinas rolavam calmamente sobre um leito de cascalhos em um tom marrom bem claro com menos de meio metro de profundidade e cerca de 3 metros de largura, pelo menos até onde dava para avistar era assim. Ali parecia o santuário das samambaias. As margens no riacho eram forradas delas também mas, de outra espécie. Isso dava um clima meio sinistro ao rio mas era só isso. Rapidamente o riozinho nos pareceu lindo e acolhedor apesar de não existir margem oposta e sim um barranco de uns 2 metros de altura. Era como se o rio estivesse se aprofundando no terreno e agora tem-se uma barreira natural na margem oposta.

Seu leito fazia uma curva suave, tentando se afastar da estradinha e se escondendo novamente sob os galhos e cipós que tentavam tocar sua superfície. Era como se ele desaparecesse no meio do mato e a temperatura da água era agradável apesar de ser um pouco gelada mas, isso já era de se esperar por aqui.

Seguimos pela margem contra sua corrente, em busca da origem do som de águas turbulentas que ouvimos, bastando apenas alguns passos para avistar uma clareira forrada de cascalho lavado e o riacho mais exposto ao sol. Havia um represamento das águas que a canalizava em sua maioria para um canal bem típico daqueles usados em garimpos. Tinham umas lapas escavadas mergulhadas pelo canal que deveriam ser usadas para reter ouro, que por ser mais pesado ficava por ali enquanto o cascalho lavado, seguia sendo empurrado pela força da água. Todo esse sistema foi feito usando pedras e por isto ainda estava ali. Nada muito engenhoso mas realizava o objetivo muito bem. Provavelmente a origem dos sons que ouvimos lá da estrada vinha das águas tentando passar pelas pedras do dique que não passava de um empilhado de grandes rochas mas conseguia causar um desnível de uns 30 centímetros entre os lados represados.

Naquele ponto onde estávamos, a estrada a nossa direita já se encontrava bem afastada. Mas ainda escondida por uma generosa faixa de vegetação ao seu nível, deixando o pequeno vale escondido e protegido dos olhos menos atentos. Por fim, não encontramos nenhum vestígio de lixo ou ferramentas no local. Isto nos deixou tranquilizados e com a certeza que o lugar é todo nosso! Não é sempre que se encontra um ambiente como aquele, em tão perfeito para descansar a mente.

Já passava do meio dia de sábado e ninguém iria aparecer por ali tão tarde.  Todos já se acomodaram em outros pontos do parque, bem antes de onde estávamos.

O garimpo certamente modificou bastante  a paisagem. Uma grande área mais ou menos do tamanho de duas quadra de basquete estava coberta de cascalho e rochas. Subi em um pequeno monte de cascalho para avistar o mais longe possível mas dali onde estávamos, não dava para ver além daquilo que o rio queria exibir. Atrás de nós, apenas os morros por onde a estradinha contornava seguindo seu caminho, evitando subidas e descidas fortes. Mais adiante eu avistei algo que parecia um acesso para veículos. Pelo menos parecia que ia de encontro à estrada na medida em que se afastava mais para direita. Essa poderia ser a única chance da gente poder desfrutar daquele pequeno paraíso caso contrário deveríamos seguir em frente ou voltarmos.

(continua…)

NAS CURVAS DA MONTANHA

Capítulo 1

A viagem

Quando chega o carnaval no nosso Brasil, é unânime que todos querem aproveitar o feriadão caindo na folia e cada região, tem o seu modo característico de se divertir. Aqui em Minas Gerais, a melhor opção, sempre será viajar para uma das montanhas ou cidadezinhas de Minas, seja para curtir o carnaval em uma badalada cidade histórica ou para relaxar em rios, lagos gelados, talvez fazer um churrasco, esquecer de tudo.

Longe de mim negar a tradição de cair na folia mas a minha opção sempre será curtir um delicioso relax nas montanhas.

Já com toda a parafernália de camping conferida e devidamente enfiada dentro do nosso carro, eu e minha esposa, partimos rumo ao nosso destino, a já consagrada Serra do Cipó e neste ano em especial, nós não nos dirigimos para o Parque Nacional. Preferimos ir um pouquinho além, fugir ao máximo da bagunça que os mais jovens promovem dentro do Parque. Não são todos os campings mas é a maioria. O Negócio é entrar em campings mais afastados onde a maioria não pretende alcançar pois, no fundo o objetivo é encher a cara. Eu e minha esposa, procurávamos a paz da natureza e uma boa sombra para descansarmos.

A viagem de carro até o destino já é uma aventura e cansa até mais do que se estivéssemos trabalhando mas sem o stress. Esse fica de fora e quando o asfalto acabou, entramos em uma estrada de terra e cascalho e sentimos um alívio gostoso. Após alguns kilômetros já era possível ouvir e às vezes avistar um riacho correndo lá embaixo. É que antigamente por aqui, circulavam cavalos e carroças e o ideal é que as estradinhas evitem subidas e descidas, sendo assim, nós íamos contornando os morros e montanhas e promovendo um passeio relaxante que já teria pago a viagem mas o melhor ainda estaria por vir. Em alguns momentos, era possível ver o horizonte e ter a dimensão do quanto estávamos longe de tudo. Víamos aquelas montanhas tão distantes com nossa estradinha cortando a cintura das montanhas e, raramente subindo ou descendo. A nuvens se formando isoladamente projetavam suas sombras sobre a região e não tinha como não se emocionar com aquela cena. Haviam casinhas de posseiros no fundo do vale com aquela fumacinha bucólica saindo de suas chaminés e a vontade de tomar um café, preparado naqueles fogões a lenha era quase irresistível.

Mas como tudo que sobe tem que descer, começamos a seguir serra abaixo. Vencer a serra é delicioso! Saímos de uma estradinha protegida por vegetação e passamos a curtir morros e montanhas cortados sabe-se a lá por quem, ou o quê ou a quanto tempo atrás. De um lado, um barrando de 3 a 5 metros de altura e do outro, era praticamente um precipício. EU me aproximava o máximo para ver o fundo do vale mas as vegetações impediam. Minha esposa morre de medo dessa parte seja subindo ou descendo e de fato é o momento mais perigoso. Descida lenta e constante em uma estrada de cascalho solto. Às vezes os morros cortados para abrigar a estrada expunha minérios que eu nem sei o nome e  tenho certeza que não tinha valor econômico mas a beleza não tinha preço. Naquele ziguezague descendo a serra, éramos surpreendidos por pequenas áreas da estradinha forradas de cascalho branco (acho que era cascalho) e alguns que lembravam aquelas pontas de cristal usadas em artesanatos.

A temperatura quase insuportável foi caindo na medida em que entrávamos em estradinhas cercadas por arvores do cerrado. Trepadeiras e cipós vão costurando as diferentes espécies que formam a vegetação, deixando pequenas frestas de luz que deixavam o sol tocar a estrada. Era um clima tão fresco e agradável que paramos para tirar umas fotos após fecharmos a décima segunda porteira e termos consumido 30% do combustível. A sensação era tão boa que acabamos perdendo a noção do tempo e da distancia percorrida. Mas já era hora de parar em algum lugar. A subida da serra para voltarmos consome muito combustível mas era como se a vida selvagem já tivesse nos aceito e nos protegido da civilização moderna, nos restando apenas, a música que tocava no radio do carro.

Por ali, ficamos conversando por um tempo, sobre como aquela região estava parada no tempo. Talvez seja um pouco de exagero dizer que aquela região estivesse parada no tempo e sim, em marcha lenta.

Sentamos no tronco de uma árvore caída no lado oposto da estrada. O carro estava imundo! Era tanta poeira e lama, coitado. O lava-jato terá muito trabalho na quinta feira.

Era um silencio só. Clima bom pra ficar agarradinho, num cantinho como dois adolescentes mas por ali, qualquer lugar já era cantinho e por ali mesmo acabamos nos beijando e de fato nos entregando a nossa deliciosa realidade. Estávamos sozinhos naquele fim de mundo.

Não poderia ser diferente. Sozinhos ali no meio do nada, o clima foi esquentando e não demorou muito para a gente perder a noção do perigo. Em meio a beijos e carícias íamos aproveitando o melhor do carnaval e foi quando a musica que estava tocando ia terminando e em não mais do que 1 segundo, exatamente naquele momento de silencio entre o fim de uma musica e a próxima, ouvimos o som de água corrente.

Resolvi desligar o radio para ouvir melhor e concluímos que por ali havia água corrente.

Quem sabe já tínhamos encontrado nosso destino e nem havíamos percebido ainda?

(continua…)